A história de Bela Floresta é uma daquelas partes poucos conhecidas – e fundamentais – da formação de Ilha Solteira-SP.
Juridicamente, Ilha Solteira só conseguiu chegar à emancipação porque antes passou a ocupar a sede de um distrito que já existia desde 1944: o Distrito de Bela Floresta.
O Distrito de Bela Floresta, com sede no povoado de mesmo nome, no município de Pereira Barreto-SP, e território desmembrado do distrito sede deste município, foi criado oficialmente pelo Decreto-Lei Estadual nº 14.334, de 30 de novembro de 1944.
O território era muito maior que o pequeno povoado propriamente dito. Essa distinção é importantíssima: Bela Floresta era, ao mesmo tempo, o nome de um povoado e de um enorme distrito administrativo.
E seria justamente dentro desse distrito que, mais de duas décadas depois, surgiria Ilha Solteira.
Bela Floresta surgiu como um pequeno núcleo rural ainda na década de 1930, às margens da estrada que ligava Pereira Barreto a Itapura.
Naquele momento, a própria Pereira Barreto ainda estava em processo de consolidação territorial.
Construção da usina hidrelétrica
Na década de 1960, o território de Bela Floresta ganhou importância nacional por causa do aproveitamento hidrelétrico dos rios da região.
Em 1968, começou a ocupação do núcleo urbano planejado para receber os milhares de trabalhadores envolvidos na construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira.
O resultadofoi uma situação bastante peculiar.
De um lado estava Bela Floresta, a sede oficial do Distrito, pequena e predominantemente rural.
Do outro, dentro do território daquele mesmo Distrito, crescia rapidamente Ilha Solteira, uma cidade planejada, construída em função da hidrelétrica, que em poucos anos já possuía milhares de moradores e uma estrutura urbana muito superior à da sede distrital.
Há um dado do IBGE que deixa essa transformação impressionante: na área posteriormente correspondente a Ilha Solteira/Bela Floresta, a população urbana passou de apenas 172 habitantes em 1970 para 15.875 em 1980.
Ou seja: administrativamente, Ilha Solteira ainda estava dentro do Distrito de Bela Floresta, mas demograficamente e economicamente o centro de gravidade já havia mudado completamente.
Bela Floresta fundamental para a emancipação
Quando começou a ganhar força o movimento pela emancipação de Ilha Solteira, surgiu um problema jurídico e territorial.
Ilha Solteira era um povoado. Bela Floresta era o distrito oficialmente reconhecido.
Na organização territorial paulista, o estágio administrativo imediatamente anterior à criação de um município era justamente o distrito.
A própria Assembleia Legislativa, ao apresentar o histórico territorial de Ilha Solteira, registra essa sequência: primeiro o Distrito de Bela Floresta; depois a transferência de sua sede para Ilha Solteira; finalmente a criação do município.
Portanto, para Ilha Solteira avançar em direção à emancipação, era necessário resolver essa situação.
E foi encontrada uma solução bastante engenhosa:
Em vez de criar um novo distrito para Ilha Solteira, transferiu-se para ela a sede do Distrito de Bela Floresta.
8 de maio de 1989: a data-chave
A mudança aconteceu pela Lei Municipal nº 1.633, de 8 de maio de 1989, de Pereira Barreto.
O IBGE registra expressamente:
“transfere a sede do distrito de Bela Floresta para o povoado de Ilha Solteira”
mantendo, naquele momento, a denominação distrital.
Na prática, isso significava algo enorme:
Ilha Solteira deixava de ser apenas um povoado dentro do Distrito de Bela Floresta e passava a ser a sede daquele distrito.
Mas havia outro problema:
O que aconteceria com Bela Floresta?
É aqui que a história fica ainda mais interessante.
Se simplesmente todo o território do antigo Distrito de Bela Floresta acompanhasse Ilha Solteira na emancipação, a área rural de Bela Floresta também poderia deixar Pereira Barreto.
E havia algo, economicamente, ainda mais importante envolvido: a Usina Hidrelétrica Três Irmãos, então em construção.
Ela também estava dentro da configuração territorial relacionada ao distrito.
Moradores de Bela Floresta chegaram a fazer um abaixo-assinado pedindo que a comunidade permanecesse pertencendo a Pereira Barreto. A partir daí houve alteração das divisas.
Isso permitiu uma espécie de rearranjo territorial: a sede distrital e o território necessário à formação de Ilha Solteira seguiram o processo emancipatório, enquanto a antiga comunidade de Bela Floreta permaneceu ligada a Pereira Barreto.
As negociações territorias fizeram com que Três Irmãos permanecesse com Pereira Barreto, enquanto Ilha Solteira teria recebido aproximadamente 61 km² adicionais em outra parte da delimitação territorial.
O rearranjo das divisas, permitindo que a comunidade original de Bela Floresta continuasse pertencendo a Pereira Barreto, ocorreu com a aprovação da Lei Municipal nº 1.794, de 29 de agosto de 1990.

Finalmente, 30 de dezembro de 1991
Depois da mobilização popular, da Comissão de Emancipação, da transferência da sede distrital e do processo político, veio a criação do município.
A Lei Estadual nº 7.664, de 30 de dezembro de 1991, criou oficialmente Ilha Solteira.
E o texto origional da lei guarda uma curiosidade histórica extraordinária.
Ele não diz simplesmente que Ilha Solteira foi desmembrada de Pereira Barreto. Diz:
“Município de Ilha Solteira, com sede no distrito de Bela Floresta e com território desse mesmo distrito…”
Isso praticamente documenta o papel decisivo que Bela Floresta teve no nascimento jurídico de Ilha Solteira.
Sendo assim, Bela Floresta não foi, simplesmente, um distrito vizinho de Ilha Solteira.
Ilha Solteira nasceu, administrativamente, dentro dele e, para conseguir sua emancipação, herdou sua condição distrital.
Antes de ser município, Ilha Solteira foi Bela Floresta.
Fontes e referências
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
IBGE
Câmara Municipal de Pereira Barreto
Arquivo Público do Estado de São Paulo
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